Na verdade não era velho, mas todo mundo por aqui costuma chamar os aposentados assim. Então não pude dar outro título à história de quando Seu Tomás se mudou para aquela casa velha na esquina do final da rua. É uma história complicada, mas tudo na vida é muito complicado para quem não entende de simplicidade.
Sua casa de morada era a de número 27 que pertencera a Dona das Dores. As crianças aqui do bairro a chamavam por vários nomes, bruxa, Velha do Saco, e Dona dos Gatos, este o principal e favorito, e tinham todo tipo de histórias assustadoras sobre sua casa.
Clarinha, a filha da senhora do 16, me contava que o espírito de uma menina de cabelos longos e pretos, que tinha morrido naquela casa, ainda a assombrava e ela não deixava ninguém limpar a casa, porque se não ela não teria outro lugar para ir.
- Por isso a casa é daquele “jeto”! Dizia Clarinha.
Perdi o sono uma noite com um pesadelo que viera com uma das boas histórias de Clarinha, e outras teria perdido, não fosse mamãe ter me contado que estas coisas de fantasmas não existiam.
Eu acreditava mais na mamãe do que emb Clarinha.
O que acontecia era que a das Dores não tinha mais seu marido, que falecera aos 63 anos com problemas de câncer, e não tivera filhos. Por isso os cuidados da casa não passavam de um mínimo necessário: umas vassouradas aqui e ali, um pano úmido sobre os móveis de quando em quando, e umas teias de aranha removidas dos lugares aonde Dona das Dores podia alcançar. A explicação para os gatos era simples e mesmo nós, crianças simples, a conhecíamos em nosso inconsciente: era uma senhora sozinha, e só os gatos a entenderiam, suportariam e lhe fariam companhia. Os animais são melhores do que nós neste aspecto e, aliás, os animas são melhores do que nós em muitos aspectos, porque ser melhor do que nossa raça é muito fácil.
Tem tanta gente esquisita que não passa de gente só e mal compreendida.
Dona das Dores passou mal quando eu estava fazendo, prematuramente, a primeira série, e lembro bem porque o fato foi falação por toda a rua. Lembro também da multidão de curiosos que ficou olhando o moço da ambulância levar a velhinha para o hospital. Estavam todos lá, com exceção do velho crente que olhava da janela de seu quarto, tendo em vista que uma trombose tinha lhe tirado as possibilidades de ir à observação da tragédia. De resto, estavam todos a olhar: a dona do 21, cujo filho, Julhinho, um menino gordo, nunca brincara com a gente por causa de uma asma que nunca se curava; Seu Zé da Bodega, que tinha um ódio profundo pelo governo, pois se matava juntando uma ninharia às custas de muita privação e as moedinhas amais eram tomadas em impostos; e até mesmo Tia Ana, vizinha de das Dores, que jurava de pés juntos que não se importaria no dia que a outra passasse dessa para a melhor, foi vista entre as pessoas triste aproveitando o amargoso bom do acontecimento. Lembro-me dos detalhes, mesmo sendo muito jovem, porque foi lá minha primeira experiência com essa humanidade que sabe tirar proveito de tudo, até mesmo da tristeza alheia.
Com a morte de das Dores, veio ocupar a casa Seu Tomás, cuja barba longa já era suficiente para lhe dar um ar esquisito. Não bastasse isto, ainda tinha tido a disfortuna de ter sido a vida toda professor de introdução à filosofia, que o povo daqui não sabia nem de que raios se tratava, e de ter perdido a vida por causa desta mesma ciência dos diabos. Aconteceu que, de tanto estudar para as aulas, dedicando-se hiperativamente a alunos que sonhavam com os diplomas de medicina e de direito, e exatamente pela falta de reconhecimento que a disciplina que carregava no coração tinha, foi desenvolvendo aquela doença dos ricos que hoje é moda em todo mundo: o tal do stress. Teve um AVC que quase o pôs a cova, mas que lhe deixou à beira desta. O médico lhe deu ordem para que não mais lesse qualquer coisa que fosse demasiado profunda para sua mente, e tratou logo de aposentá-lo, e isto fora oito anos antes de vim bater aqui neste fim de mundo.
O médico fora seu carrasco, disse mamãe uma vez fazendo docinho de manga pro meu aniversário, pois como é que se diz a um homem que este não pode se dedicar nunca mais à paixão de sua vida. Mas também, acrescentou, que diabos tinha lhe dado na cabeça de ter escolhido como paixão esta tal ciência de pensar, tivesse sido médico, como com certeza seu galeginho seria, nunca ia ter aquele problema. Mas foi logo se dedicar a pensar, continuava, e ninguém tira muita coisa boa do pensar demais, só maluquice e esquisitice.
A rua toda não era de opinião diferente, mas o boato era maior e rezava que ele tinha ficado doido mesmo era por causa da morte da mulher. Você sabe como é esse tipo de gente esquisita, de que ninguém gosta muito, e cujo destino é morrer de solidão. Seu João de Alencar, nosso vizinho, contava umas histórias de uns escritores românticos que viriam na depressão, tísicos, e acabavam se matando cortando os pulsos. Mamãe não gostava nada destas histórias.
“- O que é tísico, Seu Ju?
- É a pessoa que pega aquela doença de esquisitos, Carlinhos, a tuberculose.”
A esposa de Seu Tomás, cuja foto ele trazia sempre no bolso direito da camisa, tinha morrido no parto da única filha do casal, que se escolheu chamar Joseane. Criada sem a mãe e sobre a influência esquisita do pai, não poderia ter deixado de ser também esquisita. No que já vou adiantando, ela foi a primeira aqui da rua a se meter com aquela música endiabrada, o rock, que vinha lá do estrangeiro.
Seu Tomás já era um pouco velho, ou melhor, envelhecido pro causa dos muitos dias tristes que passava com sua própria vida, mas sua filha só tinha treze anos quando os dois vieram ocupar a casa de número 27 da esquina no final da rua. Ninguém levou bolo ou torta para às boas-vindas, nem teve boas vindas, porque esse é um hábito de fora e não nosso, mas talvez se tivessem levado tudo poderia ter sido diferente. Mas a vida é assim mesmo, ensinou-me mamãe e foi uma de suas últimas lições que aprendi: tudo poderia ter sido completamente diferente, mas não podia, porque dependia de nós e nós somos assim mesmo.
Tudo não aconteceu como deveria ter acontecido; tudo nunca acontece como deveria ter acontecido.
Num dia, quando resolvemos deixar de lado os preconceitos e os receios, influenciados por Clarinha, e fomos procurar Joseane para brincar, mesmo sendo ela mais velha do que todos nós, já era tarde demais (eu percebi isso, embora os outros não). A rua inteira já tinha criado um estigma com relação a Seu Tomás, e ele para com a rua igual e consequentemente. O pai dela, que foi quem nos recebeu à porta, disse que ela não podia brincar, porque precisava estudar.
Eu a vi olhando pela brechinha da porta com uma cara de vontade.
Não brincou mais; também não a chamamos. O pai e a filha iam para o supermercado todo o domingo, e teve uma vez até que eu vi Tia Ana atravessar para o outro lado da calçada quando ele passava. Ele, de sua parte, não colaborou em nada, mas aumentou a provocação, começando a usar umas camisas esquisitas que demonstravam suas convicções religiosas, anarquistas, etc. Isto só fez piorar a situação. Talvez esperasse que as pessoas fossem se tocar e parar para conversar, dando-lhe pelo menos uma chance de se explicar, de se mostrar a si mesmo. Mas mesmo o grande filósofo não conseguia entender que todo mundo não dá chance nenhuma, e que as exceções são jóias raríssimas de se encontrar: talvez sua esposa fosse a única, não sei.
As coisas complicaram-se ainda mais, porque ele insistia em ensinar à filha o que era certo, bom e justo, mas o certo, bom e justo muitas vezes não são interessantes. Aumentando a rigidez, ao invés de tentar compreender o diferente, Seu Tomás quebrou o elo pai-filho com Joseane e a jogou a rebeldia e a vontade de experimentação.
Lamento, hoje, pelo erro deste pai, que não é único mas é erro de muitos pais, mas também me regozijo dele. O erro dos outros é a vantagem de nós.
Joseane passou a ser completamente diferente do que deveria ter sido. Passou a gritar com o pai, a chegar tarde em casa, e a vestir roubas que não deixavam aquele velho nem um pouco confortável. Foi ela quem nos contrabandeou os primeiros cacetes de rock e as primeiras revistas pornográficas e para alguns, os que ela considerava mais bonitos, deu muito mais.
Foi ela quem tirou a virgindade de Julhinho, que tinha conseguido juntar uma grana preta só para aquilo, e acredito que foi aí que ela começou a se envolver com prostituição.
A vida continuou normalmente, e fui me dedicar desde cedo aos estudos pré-vestibulares para o curso de medicina. Deles não falo; melhor perguntar para mamãe que se orgulhou muito mais de minha aprovação.
O fato de importante mesmo foi quando Joseane resolveu que eu era suficientemente bonito para me dar o direito de uns amassos. Eu tinha treze anos e muito juízo, embora este não tenha servido de nada para me prevenir de acompanhar Joseane para um dos cantos escuros do fim da rua. E ela tinha o corpo de lá para os dezesseis. Lembro-me dos olhos de Clarinha, chateados, quando deixei de conversar com ela para acompanhar aquelazinha (como ela mesmo chamava), mas esta lembrança nem se compara ao que Joseane me deixou ver e tocar.
Voltei a falar com Clarinha, depois, enquanto completava meu sexto semestre do curso de medicina, e logo começamos a namorar. Nada de estranho, desde meninos éramos ditos o casalzinho perfeito, talvez o que tenha criado o sentimento em Clarinha desde o princípio. Também eu tinha galgado um dos degraus mais importantes da sociedade brasileira, e me tornara a mim mesmo o partido mais cobiçado da rua. Não tinha uma senhora da rua que não quisesse que eu me envolvesse com uma de suas filhas, e as filhas não agiam diferentemente. Três delas foram ousadas o suficiente para me convidar para comer um pedaço de bolo em suas casas, quando aproveitavam a oportunidade para deixar suas filhas me fazendo sala: sozinhas.
Acabaram apenas desvalorizando-as, mas mesmo que não, eu voltara aquela rua unicamente para buscar a minha esposa. Simples assim, e a busquei.
Ainda vi Joseane uma outra vez, quando da minha despedida de solteiro: ela quem me fez as honras, um programa que custou a meus amigos míseros setenta reais. De seu pai só soube apenas que morrera quatro anos depois, vítima de um AVC fulminante, provavelmente resultado de seus esforços em terminar as pesquisas para poder escrever seu Tratado de Filosofia Aristotélica, que, prometia, revolucionaria todo o ensino da filosofia e lhe traria a merecida fama de verdadeiro filósofo e autoridade máxima em Aristóteles, que o mundo nunca lhe dera.
As quinhentas primeiras páginas do Tratado, inacabado, estão aqui comigo agora, debaixo de um monte de outros livros que compõe minha biblioteca particular. Estava no lixo da casa número 27 da esquina do final da rua, que comprei mobilhada para pôr em aluguel: apenas um investimento.
Pensei em queimar a obra, que inacabada não tinha seu valor nem era digna de publicação, mas abandonei a ideia. Ela servia de lembrete para nunca me esquecer do destino dos filósofos que não sabem calar a boca e se esconder do mundo: são tratados como loucos, suas filhas viram putas,e suas obras acabam enfeitando as bibliotecas particulares de hipócritas ricos como eu.

.jpg)
.jpg)


